Familias em stand-by
Aproxima-se do fim o estado de hipnose colectiva, que em grande parte do mundo se vive à custa do campeonato do mundo do futebol. À medida que as selecções eliminadas vão regressando a casa, chega ao fim o “intervalo” nas preocupações e voltamos a concentrar-nos na vida.
A crise não faz intervalos e para os milhões de homens e mulheres cilindrados pelo desemprego, pobreza e exclusão em todo o mundo, o desafio dura a vida inteira, sem intervalos nem substituíções.
Por cá, um estudo da tese – “Associação para o desenvolvimento”, coordenado pelo ISCTE, revela que quase um terço das familias portuguesas vive num limbo. Dizem que estão em “stand-by”, mas já entraram numa curva descendente.
São gente vulgar. Não estão classificadas oficialmente como pobres, a maioria ainda tem emprego, porque beneficiam de “demasiados recursos para aceder a prestações sociais mas que experiementam particulares dificuldades” em conseguir responder às despesas usuais.
Os adultos que integram estes agregados ganham por mês entre 379 e 799 euros. Estão por isso acima do limiar de pobreza, um linha que separa quem ganha mais ou menos do que 60% do rendimento médio – e representam 31% dos agregados residente sem Portugal. Outros 20,1% estão classificados como pobres.
A maioria das famílias-sanduíche habita em áreas urbanas, 21% não tem qualquer capacidade para suportar despesas inesperadas, que é o que acontece actualmente a 21,5% do total dos agregados portugueses. São vidas “hipotecadas”. Fazer planos é algo que a generalidade considera inglório.
Para muitos dos inquiridos no estudo em referência, ir às vezes ao cinema, ou ao teatro, comprar um livro, são gestos que entraram para a categoria dos “luxos”.
Para os investigadores, os casos observados confirmam a necessidade de se pôr fim aos regimes laborais que são propiciadores de pobreza – caso dos “falsos recibos verdes”.
Em Portugal as pessoas em risco de pobreza vivem com 260 euros; na Dinamarca este limite situa-se nos 900 euros. A taxa de pobreza é calculada já depois das transferências dos apoios sociais para as famílias. Sem estes, abrangeria 40% da população em Portugal.
A equação é simples, se forem aplicados os planos de auteridade impostos pela Comissão Europeia, que desferem um ataque sem precedentes contra o estado social, com cortes e reduções das prestações sociais – o que já acontece, mas para a Comissão Europeia ainda é pouco – o corolário será atirar para a pobreza quase metade da população portuguesa.
Mas há por cá quem viva na boa, segundo o relatório da riqueza mundial, num momento em que as principais economias se debatem com graves problemas de pobreza, o número de pessoas com mais de 1 milhão de dólares em carteira cresceu a um ritmo de 17,1% e as fortunas cresceram 18,9% face a 2008, ao mesmo tempo que a economia mundial recuou 2%.
Já na tuga, o número de milionários também cresceu. Mais de 11 mil portugueses têm uma fortuna superior a 1 milhão de euros, não estando incluídas no montante casa, carros, iates, objectos colecionáveis e bens de consumo duradouro.
Quem havia de dizer que faz de novo sentido a exigência: “os ricos que paguem a crise”.
Vitor Cavalinhos
Deputado Municipal do BE







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