COMUNICAÇÃO SOCIAL
Vergonha, falta dela, ou apenas um estado de alma
Corria o ano de 2008 quando na Áustria um ministro se demitiu porque foi apanhado a caçar sem a respectiva licença. No mesmo ano demite-se uma Ministra na Suécia por ter tido um caso extraconjugal. Ainda no ano passado na Inglaterra um ministro que não entregou a tempo e horas a sua declaração de rendimentos demitiu-se do governo. São 3 exemplos menores, de casos menores, que nem fizeram correr muita tinta e mereceram no nosso país apenas umas pequenas notícias de rodapé na televisão ou uma pequena caixa nas últimas páginas dos nossos jornais.
Compreende-se porquê. Em Portugal não existe essa coisa da coerência para os detentores de cargos públicos. Não existe o sentido de que os detentores de cargos na coisa pública deveriam ser os primeiros a dar o exemplo no cumprimento das regras estabelecidas. Por isso não damos valor aos exemplos que vêm de fora, chegando ao ponto de os desdenhar por isso.
Aliás, somos um país que valorizamos essa falta de coluna vertebral. Isaltino Morais ex ministro, presidente da Câmara de Oeiras é julgado por crimes que em qualquer país civilizado fariam com que nem sequer se candidatasse e ganha as eleições com maioria absoluta. Valentim Loureiro, a ser julgado por crimes que envergonhariam qualquer um, concorre à Câmara de Gondomar e ganha, com maioria absoluta. Poderíamos aqui continuar com as manifestações de apoio popular a Fátima Felgueiras que em vez de voltar a Portugal com o título de foragida à justiça, regressa como a salvadora do povo de Felgueiras que a recebeu como heroína ou com a falta de vergonha de Adelino Ferreira Torres cujas promiscuidades na gestão autárquica davam pano para mangas.
Por isso não nos escandalizamos com os crimes menores. Devemos ser dos únicos países aliás onde valorizamos o crime a ponto de o tornar uma coisa boa. Quem ainda não ouviu dizer a um qualquer popular que “ele roubou, mas ao menos fez alguma coisa pela terra” ou pior, que escorraça quem denuncia estas coisas. Que o diga Francisco Assis que foi corrido à paulada de Felgueiras.
Por isso somos um país onde constantemente ouvimos dizer que “o que fazia falta era um Salazar para pôr isto na linha”. Porque nós enquanto povo não o fazemos. E já agora nem o queremos fazer. Porque assim temos sempre alguém em quem deitar as culpas e não precisamos de nos lembrar que temos governantes manifestamente corruptos porque nós o permitimos. E podemos chorar pelo velho das botas e fazer com eu isso pareça uma coisa boa.
Mas esta nossa característica de desculpabilização individual traz-nos outras vantagens. É que sendo nós portugueses individualistas e egoístas por natureza podemos dar-nos ao luxo de pensar só por nós. Por isso já nem nos choca que tenha morrido há onze anos uma criança no Seixal e que até hoje e apesar de haver uma deliberação camarária que obrigava o município a pagar 250.000 Euros aos familiares da criança, a família nada tenha recebido porque há um Presidente que acha que a honradez e a palavra dada não contam para o léxico político. Prefere escudar-se nos tribunais. Por isso não nos choca minimamente que no mesmo município o presidente para não ter de passar a vergonha de ser condenado em tribunal por avenças ilegais chegue a acordo para pagar uma multa e depois minta aos munícipes dizendo que nunca foi condenado em Tribunal. Não foi, porque acordou a multa.
Somos um país de brandos costumes, diz-se. Somos um país de idiotas. Digo eu. Um país que não se respeita porque não se dá ao respeito. Não temos uma cultura de exigência porque nem sequer queremos saber o que isso é. Acho sinceramente que temos o país que queremos para que no dia do naufrágio possamos dizer que a culpa é dos outros. Dos que nos governaram sem termos de nos lembrar que eles nos governaram com o nosso voto ou com a ausência dele, como aliás é cada vez mais normal. Para podermos falar mal das maiorias absolutas que afinal e feitas as contas são apenas as vontades de 1/5 das populações com direito a voto. Ou seja, maiorias que de facto não passam de minorias preocupantes.
Por isso não me falem em escutas, em Armando Vara, em José Sócrates, em Luís Figo, em José Godinho, em Paulo Penedos, em Rui Pedro Soares, em João Carlos Silva, em Marcos Perestrelo ou no Procurador-geral da Republica que eu nem quero saber pois num país que não fosse Portugal, já nenhum tinha cargos ou mordomias. Por isso não me falem na licenciatura do Primeiro-ministro, com exames de inglês técnico feito por fax e notas dadas a um domingo sem que o aluno sequer frequentasse as aulas pois num país que não fosse Portugal, Sócrates nem sequer se candidataria a um segundo mandato porque teria se demitido antes. Muito menos me falem no caso Freeport e nas luvas e nos dinheiros que fizeram o negócio ser possível. Não me falem nisso porque isso só acontece porque estamos em Portugal. Neste Portugal que nós construímos e do qual não queremos saber. Por isso aceitamos uma Comissão Parlamentar de Ética onde por exemplo assistimos ao caricato de ter uma deputada (Inês de Medeiros) que é colaboradora de uma revista detida por um dos envolvidos no escândalo Face Oculta, que depois vai elaborar o relatório final. Aceitamos e pior, não queremos saber disso para não podermos ser incriminados. Por isso aceitamos uma Comissão Parlamentar de Ética que foi enxovalhada por jornalistas como Felícia Cabrita ou Mário Crespo durante as suas audições. Sem que um Deputado se tenha erguido, protestado e se tenha dado ao respeito que a instituição parlamento deveria merecer. Porque não existe essa cultura de respeito em Portugal, porque nós não a exigimos. Por isso aceitamos como normal que Armando Vara se tenha dirigido á dita Comissão Parlamentar de ética mentindo ou pelo menos adulterando o que anteriormente tenha sido dito pelo próprio e ninguém se tenha insurgido contra isso. Porque não temos cultura de exigência e isso reflecte-se em quem votamos para nos representar, com as raras excepções, que como diz o ditado popular, no final, apenas confirmam a regra.
Somos o país que queremos ter e enquanto nós cidadãos não mudarmos não esperemos que os outros mudem por nós.
Uma palavra para a Madeira. É sempre triste ver o que aconteceu e por muitas palavras que se coloquem num qualquer papel certamente que não podem compensar o que aconteceu. Por isso fica apenas o meu luto e dor pelas famílias da Madeira que perderam familiares mas também bens que em muitos casos são resultados de uma vida de trabalho. Mas espero também que no pós-temporal, não se faça o que é normal nestas situações. Aproveitamento político. È que a vida das pessoas não merece esse triste fim.
Daniel Arruda, 26/02/2010 in Setúbal na Rede
Membro da Coordenadora concelhia do Bloco de Esquerda
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